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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mude



Se alguém, sem ser o Mr.B. lesse o meu blogue perguntar-me-ia:
-Margarida, então mas tu agora já não desenhas?
-Desenho! -responderia eu muito espantada com uma sobrancelha arqueada e tudo.
-Então mas já não tens postado os teus desenhos nem as esculturas nem aquelas merdas parvas todas que tu fazias- sujavas e chão e tudo!
E aí eu responderia muito assertivamente:
- Eh pah! Eu agora gosto mais do design e da moda e dessas coisas assim....

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Mona Lisa




O meu namorado faz reproduções exactas da Mona Lisa quando faz xixi no chão!

domingo, 8 de novembro de 2009

Público

Quero coser-te as calças meticulosamente de cada vez que se rasgam, quero rasgá-las para tas coser de novo, como se cada ponto fosse uma declaração do que sinto por ti.

domingo, 1 de novembro de 2009

Março

Março: frio. A calçada ainda não secou das chuvas intensas dos últimos meses apesar de já não chover há semanas. O céu estava completamente encoberto há pouco, agora, espreitam uns raios de sol no meio de umas nuvens carregadas.

Ela: cortou o cabelo há dois dias, hoje vestiu a saia beije de três folhos e a blusa às bolinhas verdes. Sabe que não combina mas, tem calçados uns ténis. Dirige-se, insegura para a porta do teatro.

A rua: obras na rua que ela percorre para chegar ao teatro, buracos no chão, carros pesados.

Ele: trás a mochila cheia, assente apenas num ombro. Vestiu o casaco de cabedal castanho que lhe haviam dado e que detestava. Parecia mais velho. Colocou a sua expressão mais indiferente. Por vezes de súbito apercebia-se do peso que carregava na mão direita, não desviava o olhar para o ver mas tomava consciência da presença do violino.

Ela: sentia-se avançar agora completamente consciente de que andava, tomava consciência os seus pés um depois do outro, dos joelhos que flectiam e que distendiam, o braço inerte agarrava a mala que trazia ao ombro, ao invés, o outro bamboleava para a frente e para trás. Da distância dos seus olhos do chão, via avançar as pedras da calçada na direcção oposta àquela a que se dirigia.

Os carros: dois. Param para ela passar.

Ele: desce a escadas e vê-a. Concentra-se na indiferença.

Os dois: Ele estica-lhe o violino, ela segura-o. Ele tira a mochila do ombro, abre-a e entrega-lhe o saco. Ela não o abre e coloco-o na mala que trás ao ombro de onde tira dois ou três livros. Despedem-se cordialmente.

Ele: mantém-se indiferente.

Ela: apercebe-se da realidade.

Março: o Sol brilha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

UHU

Colocava todos os dias o tubo de cola UHU de embalagem azul no bolso de dentro do casaco - quase sempre o mesmo.
Fechava-o meticulosamente. apertava a tampa com tanta força até que as pontas dos dedos primeiro ficassem vermelhas depois, gradualmente. perdessem a cor.
Seguia sempre decidido, sem abrandar o passo, numa sucessão de pequenos passinhos rápidos acompanhada por um apertar constante da mão contra o casaco no sítio onde estava o tubo de cola. Este era-lhe essencial.
A certa altura num gesto brusco abria o casaco e tirava o tubo de cola, sentia desprender-se-lhe da cara a metade dos óculos que lhe restava.
Retirava os meios-óculos da cara, espalhava cola pela armação e pela haste direita que sobrava.Deixava cair um pingo de cola no meio das sobrancelhas, na zona onde a armação assentaria no nariz.
Empurra os meios óculos contra a cara satisfeito por recuperar a sua peculiar forma de ver o mundo.

sábado, 24 de outubro de 2009

declaração de amor

Tu não és o meu sapato, tu és as minhas unhas dos pés.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fantasiava com ela desde que a conhecera, não que fosse a típica rapariga com quem se fantasia mas porque tinha um encanto especial.
Sorria sempre entre amigos, pareceia-me em alguns momentos, uma das pessoas mais bonitas do mundo, com aquele seu dentinho encavalitado de lado, os olhos redondinhos escuros e o cabelo sempre desgrenhado.
Fomos falando cada vez mais e cada vez lhe encontrava mais encantos.
Passei a reparar-lhe nos sapatos, era engraçado nunca tinha reparado nos sapatos que usava, sendo todos eles tão característicos um bocadinho de salto o dedinho a ver-se em dois ou três pares, rasos com uma flor de lado, tinha uns de veludo bourdeux que tinha cuidado não usar nos dias de chuva. E tinha uns botins de salto alto com uns atacadores muito fininhos que em jeito de brincadeira lhe dizia serem os seu sapatos de sapateado.
Já estava naquela fase em que tudo nela me agradava.
Apareceu com os botins ao jantar em casa de uns amigos. fomos ficando sem pressa, os grupos foram-se dispersando eu absorto só lhe conseguia olhar para os botins, sabia de cor as características de todos os seus pares de sapatos, quer de verão quer de inverno, apercebi-me que as particularidades tão peculiares que eu encontrava nos seus sapatos não eram senão o reflexo do desejo de a ver descalça.
Pedi-lhe, ela acedeu.

Perdi o interesse.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Erecção

"-O seu desejo mais intimo....
-Ser homem por um dia, mas apenas por um dia, para ter uma erecção.

Também eu desejei ter uma erecção ali mesmo,um formigueirinho entre as pernas,o meu pénis , recém-adquirido, ao inchar, levantava-me um pouco a saia eu afastava a cadeira da mesa para ver melhor, discretamente levantava o resto da saia e olhava-o.
Inchado.
Escuro.
Com veias sobressaídas.
Viscoso.

Não me queria tornar um homem por um dia para ter uma erecção, queria apenas tê-la."

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Fado= Destino

A rapariga cantava prodigiosamente mal, mandavam-na calar na catequese para não destoar dos colegas, à noite sonhava que chegaria na próxima sessão da catequese e que quando cantasse lhe saíria, não a sua voz, mas a da Amália.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fátima....

No dia da partida, de manhã vestiu os calções e uma t-shirt com nossa senhora estampada. A imagem era qualquer coisa de etéreo, parecia a aparição ela mesma que desta vez acontecera numa t-shirt ao invés de numa árvore. Na cabeça um boné verde e às costas uma pequena mochila com o essencial.
Partiu pela fresca com convicção, de joelhos. Trezentos quilómetros que seriam pouco para agradecer o que nossa Senhora fizera por ele, um sacrifício que na realidade era uma agradecimento.

De joelhos, ao sol, trezentos quilómetros...os joelhos em sangue cravejados de gravilha, mas aguentava, sem vacilar fechava os olhos e via-A. Continuava sem nunca pensar em desistir, ao fim ao cabo já não tinha cancro nossa senhora salvara-o.
As feridas nos joelhos não eram nada comparado do que ela o salvara.


As feridas pioravam mas isso não era nada, ela estava ali...sempre a seu lado, ele via-a, sorrindo-lhe serenamente mostrava que acreditava nele.

A morte foi serena.
A gangrena causada pelas feridas alastrara mas ele não deu por nada porque ela o pacificara, a sua presença abstraira-o e tornara a sua morte num calmo milagre.

domingo, 21 de junho de 2009

Quase kafka

É um sentimento quase kafkiano tentar levá-la a fazer aquilo que ela teme.
Está ali mesmo ao meu alcance e ao alcance dela mas nem eu nem ela o conseguimos atingir.
Eu queria que ela o fizesse era melhor para ela, ela diz que eu tenho razão e baixa a cabeça.
Só queria que ambos ultrapassássemos o complexo Kafka.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Consulta

- Sabe doutor tenho vontade de fazer mal a mim próprio...às vezes coisas simples, se me sinto mais triste, não é preciso acontecer nada de especial ou terrível, tenho vontade de espetar um garfo no braço e fazê-lo entrar bem funto até que os dentes toquem no osso o que a parte mais grossa também ela se enterre.O sangue há-de jorrar e espalhar-se pelas minhas roupas e a dor vai ser praseirosa como uma dentada de amor....sei que há qualquer coisa de errado aqui...um psiquiatra não deveria ter um divã?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O fumo prometido.

A casa dos meus avós era no campo, a porta da cozinha, que dava para a marquise cujo chão se inundara com vasos de plástico a imitar o barro , estava sempre aberta apenas protegida contra as moscas por uma rede de plástico que se encardira com o tempo.
Todos os segundos Domingos do mês, aquando do mercado do mensal o meu avô ia buscar-me a casa para ver a feira e depois seguíamos para casa onde a minha avó nos esperava com o almoço feito.
A minha avó tirava-me sempre as espinhas do peixe e descascava-me as batatas, ao almoço ouvíamos o noticiário- como lhe chamava o meu avô - no fim do noticiário, já o meu avô tinha terminado o almoço eu sentava-me muito junto a ele e ficava à espera.
A minha avó colocava o cinzeiro e os fósforos no canto da mesa.
- É isto que ainda te há-de matar- dizia sempre.
Tirava o maço de Português amarelo do bolso da camisa e acendia o cigarro.
Era aquele o momento pelo qual eu esperava...o primeiro bafo aquele cheiro inundava-me as narinas, dava-me prazer. Ao segundo afastava-me, já o cheiro era diferente.

Hoje todos os dias meto 3,40 euros na máquina e tiro um Português amarelo, nos dias bons lembro-me do meu avô, dos almoços e das voltas na feita, outros tenho em que me lembro do João César Monteiro.

Braille sussurrado

A filha conhecia todas as histórias de cor, todos os clássicos lhe chegavam sussurrados aos ouvidos embalados pelo silêncio da noite.
Deitava-se na cama e não precisava de abrir o livro que continuava descansado na cabeceira de onde nunca tinha saído, que só não estava cheio de pó porque invariavelmente todos os sábados era limpo durante a limpeza semanal.
No quarto ao lado, a mãe e o pai deitados lado a lado com a cabeça recostada em duas almofadas cada um. A mãe, mais nova que o pai enverga uma camisa de noite impecavelmente engomada,coloca os óculos ao peito presos por um fio verde.
- Hoje apetece-te o quê?
- Podes continuar o do Llosa..
A mãe segura no livro, coloca os óculos e começa a ler alto.
O pai, cego, escuta com os olhos vazios e imagina as cenas dos livros da mesma forma que imagina tudo o que o rodeia no seu dia-a-dia, a filha no quarto ao lado de olhos abertos com a luz apagada faz o mesmo.